“Uma rua cruzada constantemente por gente (…)
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres.”
— Trecho de “Tabacaria”, de Fernando Pessoa
Rua Tupis, 472. Um endereço que não existe mais, exceto pela memória e pela vida que envelhece entre as paredes da casa. Há sempre a lembrança da porta azul, que fecha e abre o quarto de Dona Almita, a senhora minha avó. Um azul anil pintado sobre a madeira velha e empenada.
O quarto fica num corredor que leva ao banheiro, à cozinha e ao grande quintal. O corredor não é totalmente fechado e a luz sempre entra por cima do muro, deixando dourada qualquer pessoa que se sente à soleira da porta depois das 17 horas.
Ela às vezes se senta lá para contar a aposentadoria, enfiar a linha na agulha ou para pentear os cabelos de algodão depois do banho. Sempre encostada em um dos lados, para poder cruzar as pernas e não arreganhar a saia.
A primeira vez que eu vi o boi de janeiro* rodopiando pela cidade foi na Rua Tupis, na porta da casa 472, assustada e curiosa. “Anda, Zabela. Vem ver! Ói, acho que cê nunca tinha visto os fuliões!” — me convidou minha avó.
Fitas coloridas, chita, palmas, crianças correndo por entre os panos, mais palmas, violas e o sol da tarde sempre quente. Dona Almita com o sorriso rasgado e eu, por de trás de suas pernas, assustada e curiosa, olhava a comitiva passar. O boi passou. Hoje a rua tem outro nome. A saudade é a mesma, cada dia maior.
—
*A festa do Boi de Janeiro é uma manifestação cultural tradicional em vários municípios do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. O Boi de Janeiro, junto com outras figuras humanas, percorre as ruas das cidades ao som de animadas músicas que trazem em suas letras a cultura popular do Vale. (Essa definição é do portal Polo Jequitinhonha UFMG).
Outras crônicas de Zabelê:
O que li por aí e gostei demais da conta:
O prêmio e a farinheira (O Mateus Habib fala de comida com o coração e quase sempre me mata de saudade de casa. Com esse texto eu tive até que chorar.)
Ensaio sobre o conceito de pobreza entre a elite literária paulistana (Um texto sensacional do Élvio Cotrim sobre os “pressão-baixa-franja-assimétrica-tez-pálida-nascido-fora-da-rua-Angélica”.)




E a gente sempre cavoucando, incansavelmente, em busca de mais raiz!
Isso nos alimenta, dá lastro ao barco da vida e estabilidade nos momentos de tempestade. Temos sempre para onde retornar. Estão lá as âncoras mnemônicas a nos aguardar.
Memória se transforma em proteção emocional quando a valorizamos e abrimos caminhos para que passado, futuro e presente se alinhem em qualquer direção e sentido.
A saudade tem esse poder de nos teletransportar para momentos únicos e tão tão aconchegantes, que nos proporcionam a paz e a vontade de viver naquela lembrança o maior tempo possível.. Lindo texto!