Sempre achei que Maria Caiana tivesse um cheiro fresco, assim como se sua pele soprasse uma brisazinha doce que faz a gente querer respirar devagar perto dela: inspira-mariacaiana-expira.
Nunca a conheci, era, ou é (não sei se está viva), amiga da minha avó. Não me lembro da primeira vez que ouvi seu nome, só sei que ele foi caindo macio dentro de mim sem fazer barulho algum, espraiando-se entre meus sentimentos e me fazendo inspirar-mariacaiana-expirar, em busca do incorpóreo.
Daí comecei a pensar que, sendo Maria Caiana, tudo nela só podia mesmo ser macio. Suas coxas fazendo vincos de nuvens sempre que alguma mão as apertassem. Não sei que mãos, mas tendo dedos, elas apenas encontrariam a suavidade de plumas. A pele daquela cor que o açaí deixa na boca depois que a língua passa e resta só a lembrança umedecendo os lábios.
Maria Caiana não tem rosto porque eu não suportaria imaginar alguém que, sendo ela, pudesse acabar. Maria Caiana fechando os olhos morta. Não. Nunca vi seus olhos, não sei de que cor seriam se existissem. Seu rosto: uma neblina, deixemos assim.
Passeio com Maria Caiana sem rosto. Sou criança, ela me segura pela mão e me manda ter cuidado. “Devagar, menina”, diz a voz que não alcanço. Nunca sonhei com Maria Caiana, apenas convivemos em pensamento e estamos sempre de mãos dadas. Sua saia não esconde os joelhos, foi assim que aprendi sobre suas coxas. “Maria Caiana como você consegue caminhar sem olhos?” – eu, miudinha, sempre quero saber quando estamos juntas. “Você ainda não me deu nenhum”, ela responde sem rancor.
Estávamos assim por muito tempo, eu e ela, caminhando sempre ao fim da tarde porque aí o sol já esfriou e podíamos andar sem franzir a testa. Num dia, minha irmã desfazendo as nuvens, disse-me: “Maria Caiana ganhou esse nome porque bebia muita cachaça.”
Caiana. De cana-caiana, aquela que é docinha, boa demais pra qualquer alambique, melhor ainda para os dentes de leite porque não quebra nada por dentro. De repente, Maria Caiana outro sabor em minha língua, movendo-se com seus bagaços dentro de mim. Olhos vermelhos, só podem ser – são esses os que morrem principalmente.




Que lembrança doce
Lindeza.